Os antigos contam uma história esquisita, a um desavisado que ouve de relance pode parecer um episódio lendário ou mesmo uma mentira de salão, mas de fato trata-se de um causo verdadeiro, discorrido por distintas fontes orais em lugares e tempos diferentes. É a história da cobra Mutum, cobra chegada em beber leite e “assaltar” a mamadeira das crianças.
Em uma das versões ouvida por mim, um homem conta que quando criança, morando em um lugar o qual segundo sua descrição genuína era “só mato”, a mãe o colocava no celeiro para tomar a mamadeira. No ambiente agreste, meio selvagem meio civilizado, surgia o Mutum por entre o feno espreitando o leite quentinho. O homem, de fala pitoresca, explicou que conhecia bem a cobra e que todos dias sem falhar dava mamadeira para ela.
O leitor pode perguntar-se de que maneira acontecia essa estranha interação: se dava de mamar direto na boca da víbora segurando-a no colo, se ela agarrava a mamadeira com o rabo, ou se simplesmente “labia” o leite em meio as palhas. No entanto, estes são detalhes não revelados pelo interlocutor, deixando um mistério a ser preenchido por aqueles que ousarem a imaginar tal cena peculiar.
Outra aparição da cobra Mutum nos discursos sobre o tempo do “mato”, foi feito por uma pessoa que creio conhecer muito bem, minha própria avó. Conta ela que era comum as mulheres levarem os bebês recém-nascidos em cestas de palha para a roça, deixando-os recostados embaixo de uma árvore enquanto trabalhavam no plantio. Em certa vez, em uma certa localidade perto de onde moravam, umas conhecidas lhe contaram tal história.
Antes de “pegar na enxada” as mulheres amamentaram seus bebês e os deixaram na cesta, quando voltaram, hora depois, viram que estavam sujos, vomitados de leite. Essa cena se repetiu algumas vezes, o que fez com que resolvessem usar seus próprios métodos diagnósticos e investigar. Foi assim que armaram a situação, amamentaram seus bebês, largaram-nos na cesta e ficaram escondidas atrás de uma moita cuidando. De repente, eis que surge o Mutum, rastejando rapidamente entocou-se em meio as crianças. Quando no ato de grande habilidade enfiou seu rabo pontudo nas pequenas boquinhas fazendo com que os bebês vomitassem o precioso leite que “lambeu” regozijando-se.
Essa é uma história difícil de acreditar, possivelmente entrando na lógica do conhecido ditado: “quem conta um conto aumenta um ponto”. Mas neste caso a veracidade já não importa, o fato é que a vó acredita e diz ter ouvido mais de uma vez. Para mim, ouvinte de tais memórias, já não importa se a cobra fazia mesmo as crianças vomitarem, ou se as mães tinham tanto sangue frio a ponto de assistir a cena passivamente.
Questionar a veracidade dos fatos é menos interessante do que pensar em quanto esses causos nos ensinam a respeito do processo de formação de uma lenda. Meias verdades, acrescidas de alguns exageros, fatos reais com pitadas de imaginação, memórias de longa data vencidas pelo tempo. Assim é a tradição oral, como um brincadeira de telefone sem fio, até que vem o último da fila e resolve botar o que ouviu no papel, aprisionando na artimanha da escrita histórias que continuam livres, vivas e mutantes no imaginário popular.