sexta-feira, 18 de novembro de 2011

O acendedor de faróis


Algumas profissões são mais poéticas do que outras, existindo também aquelas que além de poéticas trazem em si uma carga metafórica.

O que dizer de uma pessoa que passou a vida toda encarregada de acender um farol?

A simples função de apertar um botão, ou girar uma manivela, traz em si o complexo engenho de fornecer referência aquelas embarcações perdidas. Navios à deriva que procuram uma costa segura para aportar.

A necessária pontualidade do acendedor de faróis, assemelha-se ao andor do sol, cuja luz acende-se todo início de dia sem que ninguém perceba o tamanho da movimentação que é feita para que isso aconteça.

Simplemente o farol está lá, como um astro de luz própria.

Ouvi dizer que a uns poucos anos o último acendedor de farol do Brasil deixou o seu cargo, agora o farol liga sozinho equipado de lâmpadas fotossensíveis.

A cada dia o mundo é um lugar mais chato!

Farol de Ponta do Mel - RN


quarta-feira, 20 de julho de 2011

Cerrados, veredas e amplidões

Assim como alguns tipos de pessoas, o cerrado não parece atrativo e sedutor logo a primeira vista, sua monotonia estética cansa o olhar pouco habituado às amplidões.

No entanto, com o passar do tempo, entregando-se a uma observação mais atenta, libertando o olho julgador para escorregar sobre suas genuínas belezas, logo fica-se apaixonado. Sua simplicidade, ingenuamente decodificada, revela-se em mistérios inapreensíveis, sua monotipia de repetições tranforma-se em um mosaico vibrante de relevos e vegetações exclusivas.

As árvores, agonizantes seres retorcidos sobre a terra árida, denotam uma robustez que produz impressão de sofrimento e dor. Seus incontáveis frutos nutritivos e as belíssimas flores parecem ser resultado da insistência de vida diante de um ambiente demasiadamente hostil.

A beira dos córregos despontam veredas, oásis que serpenteiam pela paisagem.

Os espaços vazios do cerrado, semelhante as coxilhas do pampa sulino, ao invés de libertarem a alma do observador, podem surtir o efeito contrário, aprisionando o olho que carente de limites geográficos torna-se errante a procura de um ponto seguro para se fixar.

Na ausência de barreiras evidentes a amplidão torna o olhar indolente, dando ao observador a ilusão de que todo espaço já foi conquistado.

segunda-feira, 30 de maio de 2011

Histórias do tempo do mato

Os antigos contam uma história esquisita, a um desavisado que ouve de relance pode parecer um episódio lendário ou mesmo uma mentira de salão, mas de fato trata-se de um causo verdadeiro, discorrido por distintas fontes orais em lugares e tempos diferentes. É a história da cobra Mutum, cobra chegada em beber leite e “assaltar” a mamadeira das crianças.

Em uma das versões ouvida por mim, um homem conta que quando criança, morando em um lugar o qual segundo sua descrição genuína era “só mato”, a mãe o colocava no celeiro para tomar a mamadeira. No ambiente agreste, meio selvagem meio civilizado, surgia o Mutum por entre o feno espreitando o leite quentinho. O homem, de fala pitoresca, explicou que conhecia bem a cobra e que todos dias sem falhar dava mamadeira para ela.

O leitor pode perguntar-se de que maneira acontecia essa estranha interação: se dava de mamar direto na boca da víbora segurando-a no colo, se ela agarrava a mamadeira com o rabo, ou se simplesmente “labia” o leite em meio as palhas. No entanto, estes são detalhes não revelados pelo interlocutor, deixando um mistério a ser preenchido por aqueles que ousarem a imaginar tal cena peculiar.

Outra aparição da cobra Mutum nos discursos sobre o tempo do “mato”, foi feito por uma pessoa que creio conhecer muito bem, minha própria avó. Conta ela que era comum as mulheres levarem os bebês recém-nascidos em cestas de palha para a roça, deixando-os recostados embaixo de uma árvore enquanto trabalhavam no plantio. Em certa vez, em uma certa localidade perto de onde moravam, umas conhecidas lhe contaram tal história.

Antes de “pegar na enxada” as mulheres amamentaram seus bebês e os deixaram na cesta, quando voltaram, hora depois, viram que estavam sujos, vomitados de leite. Essa cena se repetiu algumas vezes, o que fez com que resolvessem usar seus próprios métodos diagnósticos e investigar. Foi assim que armaram a situação, amamentaram seus bebês, largaram-nos na cesta e ficaram escondidas atrás de uma moita cuidando. De repente, eis que surge o Mutum, rastejando rapidamente entocou-se em meio as crianças. Quando no ato de grande habilidade enfiou seu rabo pontudo nas pequenas boquinhas fazendo com que os bebês vomitassem o precioso leite que “lambeu” regozijando-se.

Essa é uma história difícil de acreditar, possivelmente entrando na lógica do conhecido ditado: “quem conta um conto aumenta um ponto”. Mas neste caso a veracidade já não importa, o fato é que a vó acredita e diz ter ouvido mais de uma vez. Para mim, ouvinte de tais memórias, já não importa se a cobra fazia mesmo as crianças vomitarem, ou se as mães tinham tanto sangue frio a ponto de assistir a cena passivamente.

Questionar a veracidade dos fatos é menos interessante do que pensar em quanto esses causos nos ensinam a respeito do processo de formação de uma lenda. Meias verdades, acrescidas de alguns exageros, fatos reais com pitadas de imaginação, memórias de longa data vencidas pelo tempo. Assim é a tradição oral, como um brincadeira de telefone sem fio, até que vem o último da fila e resolve botar o que ouviu no papel, aprisionando na artimanha da escrita histórias que continuam livres, vivas e mutantes no imaginário popular.

terça-feira, 17 de maio de 2011

Sobre a pequena ética

Após descobrir que “etiqueta” é bem mais do que um curso de fim de semana onde se aprende “modos à mesa”, muita coisa mudou em minha prática cotidiana. Etiqueta a bem da verdade, pedagogicamente falando, é a ética pequenininha. Isso mesmo, a pequena ética nas ações do cotidiano e no trato com os outros. É a prática diária da grande Ética com “É” maiúsculo! Interessante é pensar que etiqueta antigamente, como explicou brilhantemente uma professora minha, era por exemplo, parar o campo de batalha na hora do almoço porque os generais precisavam alimentar-se e sestear depois. Tudo normal, afinal de contas a guerra é um negócio, e para além dos negócios existem os homens e suas necessidades fisológicas, respeitá-las é antes de tudo uma questão de etiqueta.

A palavra ética nunca foi tão usada como na contemporaneidade, pululam cadeiras nas Universidades “Ética disso, Ética daquilo”, mas e a etiqueta? Não será esta que está precisando de uma defesa mais radical? Afinal, grandes questões éticas não fazem parte do nosso cotidiano. Já pequenas situações, onde é mister o uso do bom senso, são triviais no dia-a-dia de qualquer um.

domingo, 1 de maio de 2011

A reinvenção da Monarquia e da Igreja Católica

Na mesma semana dois eventos pararam a Europa e fizeram o mundo voltar os olhos para o velho continente: o Casamento Real e hoje, a beatificação de João Paulo II. Tanto a Monarquia, como a Igreja são instituições que tiveram sua gênese durante a longíngua Idade Média, fortalecendo-se durante o início da Idade Moderna com os absolutismo monárquicos e reinventando-se de maneira esquisita nestes tempos de pós-modernidade.

Sempre afeita a ideia de monaquia, a Igreja manipulava os Estados Nacionais a seu próprio interesse sendo religião oficial e controlando os arroubos políticos e comportamentais da nobreza. Não é à toa que a própria Inglaterra “funda” através de Henrique VIII sua Igreja Anglicana a fim de permitir que o imperador pudesse se divorciar e casar novamente. Um exemplo claro da tênue fronteira entre política e religião na época dos governos absolutistas.

“Uma fé, uma lei, um rei!”

Com as revoluções socias espalhando-se pelo mundo, o fim da monarquia e o início de uma era de Estado Laico, pode-se perguntar o que sobrou para o Catolicismo e para a tradicional Monarquia no Ocidente.

Ainda que não se tenha uma resposta clara, estes eventos tem demonstrado uma reivenção destas instituições no início do século XXI. A monarquia aproveitando-se do imaginário popular lança o Casamento do Século, com direito a cobertura passo a passo da mídia, um cenário de conto de fadas e milhões de euros entrando nos cofres ingleses em turismo e souvenirs. Nada nobre mas sim bastante popular, a falida monaquia britanica depende hoje da camada mais baixa da população para manter-se no centro das atenções e garantir algum poder simbólico.

E a Igreja, com essa canonização relâmpago de João Paulo II não podia dar exemplo maior de sua tentativa desesperada de identificação imediata com o povo. Eu que nem sou católica, que nem fiz primeira comunhão, sei que que para realizar um processo de canonização levam-se anos, parece que no mínimo cinco anos depois da morte do dito “santo em potêncial”. João Paulo II, o papa pop, ultimo ícone do catolicismo que inspirou fiéis no mundo todo mal esfriou na cripta e já querem ressucitar sua memória a todo custo.

Para um observador atento, essa semana está sendo marcada por fatos históricos que demonstram a cima de tudo o quanto as velhas instituições tem um teor incrível de mobilidade e adaptação. Não sendo por acaso que por quase 10 séculos ainda permanecem vivas no imaginário popular.

Para nós, simples mortais, hoje é apenas o dia do trabalhador. Uma data a glorificar a classe que potencialmente teria se libertado da opressão de reis e papas e pelo mundo afora...Mero delírio.